segunda-feira, 4 de julho de 2016

A hora de saber lidar com uma disputa pelo título que há muito tempo não era vista

Quase 3 décadas depois, dois pilotos vão decidir o título mundial em guerra declarada e batalhando no estilo “só passa se for por cima”... A não ser que seus superiores os proíbam



É um sentimento quase perdido no passado da Fórmula 1.... É verdade que nos últimos anos já assistimos pilotos brigarem pelo título até a última prova de um campeonato, vimos pilotos discutirem pela imprensa ou até mesmo na sala de espera antes do pódio. Mas a categoria máxima do automobilismo já não se lembrava do que é viver uma disputa pelo título mundial com dois pilotos dispostos a chegar “às vias de fato” dentro da pista.

E esse é o momento dentro da Mercedes. Não é mais uma “simples” disputa pelo título – se é que existe disputa simples por algum título. É uma guerra declarada. Mais do que Spa-Francorchamps 2014 ou Barcelona 2016, o que o GP da Áustria de domingo mostrou é que os dois pilotos da Mercedes estão dispostos a tudo para serem campeões do mundo. Talvez um deles já tenha mostrado isso antes... Mas o outro, se não tinha mostrado ainda, mostrou agora.

Muito além de uma disputa na pista, mais do que uma dividida de curva ou briga pela vitória, o que Rosberg fez na Áustria foi mandar uma clara mensagem ao companheiro (palavra que vai se tornando a cada dia mais inadequada dentro da realidade da Mercedes): “Se eu nunca te ultrapassei por fora, você não vai me ultrapassar por fora”. Ponto final.

O leitor que me conhece ou que se atentou ao texto de abertura deste blog na sexta-feira sabe que não haverá aqui neste espaço a torcida por acidentes ou atitudes excessivas dentro de uma corrida, mas na proposta de ir além da velocidade, pensando de forma ampla, não vejo o que está acontecendo na F1 em 2016 como algo ruim, muito pelo contrário. O sentimento de tensão para todos – espectadores, inclusive – está em nível elevadíssimo. E isso é bom, porque esporte, qualquer que seja ele, envolve disputa, rivalidade, envolve riscos e, não menos importante, envolve tensão.



Não é tarefa fácil, mas é importante para o futuro da Fórmula 1 (que vive queda de audiência, embora muitos ainda se recusem a encarar isso como um fato) que os diretores da Mercedes entendam que sim, acidentes devem ser evitados, mas que podem ocorrer disputas duras, divididas de freada rigorosamente apertadas, e trocas de posições curva após curva com os dois pilotos deixando espaço e respeitando um limite. Esse é o trabalho a ser feito "nos bastidores" agora... Hamilton e Rosberg já fizeram isso. Webber e Vettel na Malásia em 2013 chegaram a dar uma aula ao mundo.
  
Mas infelizmente a Formula 1, dominada pelos interesses das maiores construtoras de carros do planeta, chegou a um ponto em que toda essa tensão, toda essa atmosfera que está sendo vista em 2016 e que foi o grande “sabor” do GP da Áustria pode ser riscada do mapa num estalar de dedos, numa simples decisão de um diretor de empresa que passa a vida sentando num escritório e para o qual a Fórmula 1 é apenas um “setor” que se encaixa em seu caro orçamento anual. Um setor sujeito a decisões tomadas friamente, como igualmente frias são suas “metas empresariais” que só objetivam o resultado.

Mas Fórmula 1 não é ciência exata – embora o modo de operar os carros hoje em dia se aproxime disso, mas é assunto para post futuro. Fórmula 1 é corrida de carros, Fórmula 1 envolve calor humano e, como vimos no Red Bull Ring, às vezes envolve decisões tomadas em momento de alta adrenalina e mínimo tempo para se pensar.

Há maneiras de se evitar extremos na disputa entre pilotos que não passem pelo rigor da proibição daquilo que é a essência do esporte: a briga por uma vitória. É evidente que nenhum diretor de equipe quer ver seus carros batendo um com o outro -  estão certos de não querer isso. Mas neste momento entra a habilidade de um comandante, que age em beneficio de seu time sem cruzar a linha que separa a liberdade dos pilotos para demonstrar suas habilidades e a proibição que por tantas vezes já engessou outras corridas.

A última guerra aberta que a Fórmula 1 viveu, dentro de uma equipe, foi evidentemente Senna e Prost, já há quase 30 anos. Houve naquele tempo muito do que está havendo agora: choques na pista e fora dela, desgosto público de um com o outro, necessidade de intervenção de um certo Ron Dennis... E nem por isso a McLaren deixou de brilhar e nem por isso aquele fim da década de 80 deixou de estar na nossa memória como uma das disputas mais gostosas de se acompanhar em toda a Fórmula 1.


Só espero que num futuro distante possamos olhar para trás e lembrar da era “Rosberg x Hamilton” com um sentimento de “como era bom naquele tempo”, e não como "uma boa briga interrompida por quem não teve habilidade de saber lidar com dois pilotos ultra-competitivos"

14 comentários:

  1. Como foi bom ver esse pega entre os dois! Independente do acidente, foi uma prova de que ainda existe O Sangue Quente de Piloto naqueles caras que estão atrás do volante. Nem parece que não são os mesmos que medem palavras atrás dos microfones. As câmeras mostrando a aproximação de Hamilton como um tubarão vindo atrás do golfinho Rosberg foi fantástica e nos fez levantar do sofá como não acontecia já a algum tempo.

    O acidente... bem... foi um acidente... mas espero que realmente, pensemos “como era bom naquele tempo” daqui alguns anos.

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    1. Você está invicto nas colunas... Comentou todas até aqui! Obrigado sempre, meu caro!

      E não posso concordar mais: a reação no momento é tão espontânea como a disputa na pista! Isso é corrida!

      Abraços!

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  2. Com que alegria leio este texto, que me faz refletir, me deixa novamente arrepiado como no momento da corrida. Eu acredito que estamos vivendo um ponto de virada.Aproveitemos.

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    1. Sua presença aqui será sempre apreciada, meu caro!

      Tomara que seja uma virada para melhor, é o que eu espero...

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  3. Que belo texto! Sintetizou tudo que nós "senhores nostálgicos " da F1 dos anos 80 sentimos ao longo desses anos de abstinência por corridas realmente disputadas curva a curva, no braço. Que esse seja o caminho para uma nova/velha F1

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    1. Obrigado pelo incentivo enorme no Café com Velocidade. Fico muito feliz de vê-la por aqui! Apareça sempre!

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  4. Fábio, me tire essa dúvida: a briga entre Alonso e Hamilton em 2007 não se encaixaria (lógico que em proporções menores) nesse "duelo de sangue" de pilotos que dirigem para um mesmo "xerife"? No mais, saúdo o "grito de independência" do Rosberg, que enfim resolveu falar grosso.

    Estarei sempre por aqui, sempre lendo e, quando der, comentando.

    Abraço e sucesso!!

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    1. É uma boa lembrança, foi uma briga intensa entre Alonso e Hamilton 2007. Mas a meu ver não chegou tanto ao ponto de manobras agressivas na pista entre os dois. Foi uma forte disputa interna, mas sem choques ou contatos marcantes entre eles.

      Comente sempre, seu apoio já vem sendo legal desde o twitter.

      Abraço!

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  5. Até que ponto uma disputa interna não se torna tóxica ao ponto de dar tudo a perder. Vide o campeonato de 1986

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    1. Depende do que você chama de tóxica, Welington...O importante a se considerar no "tudo a perder" que você cita é o quão perto estão os adversários. E nesse ponto não vejo ameaça para a Mercedes.

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  6. Grande Fábio, maravilha ler vc aqui de novo!
    Pra mim esse Rosberg, da Áustria, pode ser campeão. O de Mônaco não.
    Que a Mercedes não meta a colher na disputa, pelo bem do esporte.

    Abração!

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    1. Estamos juntos nessa estrada agora, meu caro!

      Abraços!

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  7. em minha opinião não vai haver competição.
    a montadora já sinalizou que não quer e a cúpula tem seu preferido escancaradamente assinalado.
    Não vai ter batida de cones. Hamilton deve levar mais um título.

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    1. Acho que a disputa seguirá.... De um modo um pouco diferente, mas ainda seguirá...

      A ver.

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